sábado, janeiro 22

Ragazza

Desmerecidamente, a menina merecia descanso. E, talvez, um pouco de descaso. Voltar o seu corpo para o seu próprio espaço. Mergulhar em seus próprios oceanos. Disparar com suas próprias armas. Por tantas vezes voltou as suas mãos para ombros largos e vazios. Ou então, ousando desafiar suas próprias vontades, para o seu coração estacionado até segunda ordem. Não se forçou a amar por não apreciar o equívoco. Estagnou-se? Não. Estragou-se? Também não.
Não mais era necessário outros rostos, outras vozes e outros lábios. Num baile de domingo, sentou-se junto à garrafas vazias e cabeças no mesmo estado. Olhou pras garrafas, olhou para os lados, olhou para si. Ao não ver nada, em nada, descobriu do que precisava. Precisava de alma, e não de almas. Um corpo pra lhe aquecer a troco de quê? O calor encontra-se no Sol, meu caro.
E, a partir do estalo proveniente de sua essência, sentiu-se leve o bastante para constatar que não pode deixar sua peculiaridade escoar pelo ralo. Não se fez de rogada: chutou as malditas garrafas e empoleirou-se no primeiro onibus que encontrou. Ao final da viagem, fez breve caminhada rumo ao canto que não é seu, mas era onde recolia-se. Um banho, um copo de café e um barulho que refrescava. Trocou o calor pelo vento frio, adormeceu e sua alma passeou por um sonho que já teve outrora. Um sonho pesado, mas é o que cabe na situação que ela precisa vivenciar.
Quando acordou, já era outra. Quando levantou, já tinha ido longe. E, por ter ido tão longe que agora precisa descansar, sozinha, sem ninguém por perto. Esvaziou a mente, deixou poucos elementos e entendeu da maneira mais fácil que algumas coisas são porque precisam ser. Dos amigos aos amores, dos amantes aos mal-amados, dos infelizes aos debochados- não poupou ninguém, nenhum. Guardou todos numa caixa enorme, de importância mínima. A caixa guarda o corpo, enquanto as atitudes ficaram em outro lugar. Qual? Não sei, ela não me contou ainda.
E, até o fechamento desta edição, a menina me parecia tranqüila, embora existisse dentro de si uma monstruosa euforia. Só ela sabia o que a deixava ir e o que a deixava ficar. Afinal, enquanto o tempo ruía, após alguns dias, aquela mesma menina se libertaria de um breve delírio dado em um único dia, esteja a caixa cheia ou vazia.


sábado, janeiro 22

Ragazza

Desmerecidamente, a menina merecia descanso. E, talvez, um pouco de descaso. Voltar o seu corpo para o seu próprio espaço. Mergulhar em seus próprios oceanos. Disparar com suas próprias armas. Por tantas vezes voltou as suas mãos para ombros largos e vazios. Ou então, ousando desafiar suas próprias vontades, para o seu coração estacionado até segunda ordem. Não se forçou a amar por não apreciar o equívoco. Estagnou-se? Não. Estragou-se? Também não.
Não mais era necessário outros rostos, outras vozes e outros lábios. Num baile de domingo, sentou-se junto à garrafas vazias e cabeças no mesmo estado. Olhou pras garrafas, olhou para os lados, olhou para si. Ao não ver nada, em nada, descobriu do que precisava. Precisava de alma, e não de almas. Um corpo pra lhe aquecer a troco de quê? O calor encontra-se no Sol, meu caro.
E, a partir do estalo proveniente de sua essência, sentiu-se leve o bastante para constatar que não pode deixar sua peculiaridade escoar pelo ralo. Não se fez de rogada: chutou as malditas garrafas e empoleirou-se no primeiro onibus que encontrou. Ao final da viagem, fez breve caminhada rumo ao canto que não é seu, mas era onde recolia-se. Um banho, um copo de café e um barulho que refrescava. Trocou o calor pelo vento frio, adormeceu e sua alma passeou por um sonho que já teve outrora. Um sonho pesado, mas é o que cabe na situação que ela precisa vivenciar.
Quando acordou, já era outra. Quando levantou, já tinha ido longe. E, por ter ido tão longe que agora precisa descansar, sozinha, sem ninguém por perto. Esvaziou a mente, deixou poucos elementos e entendeu da maneira mais fácil que algumas coisas são porque precisam ser. Dos amigos aos amores, dos amantes aos mal-amados, dos infelizes aos debochados- não poupou ninguém, nenhum. Guardou todos numa caixa enorme, de importância mínima. A caixa guarda o corpo, enquanto as atitudes ficaram em outro lugar. Qual? Não sei, ela não me contou ainda.
E, até o fechamento desta edição, a menina me parecia tranqüila, embora existisse dentro de si uma monstruosa euforia. Só ela sabia o que a deixava ir e o que a deixava ficar. Afinal, enquanto o tempo ruía, após alguns dias, aquela mesma menina se libertaria de um breve delírio dado em um único dia, esteja a caixa cheia ou vazia.